STF invalida trechos de leis que reestruturaram carreiras na educação em Curitiba 

Plenário destes dispositivos inconstitucionais que executam regras de progressão funcionais sem prévia dotação orçamentária e preservam os efeitos já produzidos pelas normas

08/06/2026 20:00
Sessão plenária do STF - 08/06/2026Foto: Gustavo Moreno/STF

O Supremo Tribunal Federal (STF) declarou, nesta quarta-feira (6), a inconstitucionalidade de trechos de duas leis municipais que reestruturaram as carreiras de professores e profissionais da educação em Curitiba (PR). A decisão foi tomada no julgamento do Recurso Extraordinário com Agravo  (ARE) 1477280

O Plenário acompanhou o voto do relator, ministro André Mendonça. Parte dos ministros, no entanto, fez ressalvas quanto ao fundamento jurídico adotado, que representou uma mudança na importação do Tribunal. 

Voto do relator 

Segundo o relator, alguns dispositivos das Leis municipais 14.544/2014 e 14.580/2014 instituíram regras de progressão funcional na carreira sem observar a exigência constitucional de dotação prévia orçamentária para despesas com pessoal. 

O ministro André também foi recentemente inconstitucional o trecho que ampliou a aposentadoria especial para permitir a contagem de tempo de serviço “independentemente da carga ocupada” e estender o benefício a servidores que não integram a carreira do magistério. 

Apesar da declaração de inconstitucionalidade, o STF preservou os efeitos já produzidos pelas normas. Ao modular os efeitos da decisão, a Corte manteve as enquadramentos funcionais já realizados, as remunerações pagas e as contribuições concedidas com base nas duas leis, sem necessidade de devolução de valores. 

Viragem jurisprudencial 

O julgamento também marcou uma mudança na forma como o STF passou a analisar leis que criam despesas com pessoal sem previsão orçamentária suficiente. 

Até agora, o tribunal da Corte entendeu que a ausência de dotação orçamentária não tornou a lei inconstitucional. Nessa interpretação, a norma permanente é válida, mas não poderia produzir efeitos enquanto não houvesse recursos para ocorrência-la. Ou seja, o problema dizia respeito à eficácia da lei, e não à sua validade. 

Para o ministro André, a exigência de dotação prévia prevista no artigo 169 da Constituição é uma condição para a própria validade da lei. Com base nesse entendimento, o STF passou a considerar que, quando uma norma cria despesas obrigatórias com pessoal sem observar essa exigência, ela não é apenas uma norma cuja execução depende da existência de recursos: ela nasce incompatível com a Constituição e pode ser declarada inconstitucional. 

Ressalva 

Ao apresentar o voto-vista, o ministro Flávio Dino divergiu quanto a esse fundamento jurídico. Para ele, o recurso extraordinário não deveria ser provido porque a jurisdição consolidada do Supremo sempre tratou a ausência de dotação orçamentária como uma questão de eficácia da lei, e não de sua constitucionalidade. 

Dino afirmou que, no caso específico de Curitiba, não ficou de forma definitiva que o município não tinha recursos suficientes para cumprir as leis. Segundo ele, a própria execução das normas ao longo dos anos indica que não havia certeza sobre a alegada ausência de dotação orçamentária. 

Além disso, ele observou que as duas normas já foram revogadas e não produziram efeitos para o futuro. Por isso, entendemos que este processo não seria o caso adequado para promover uma mudança na jurisdição do Tribunal. 

Os ministros Nunes Marques, Dias Toffoli e Edson Fachin acompanharam Dino quanto a essa ressalva. 

similares 

Embora tenha divergido do fundamento jurídico, Dino ressaltou que, na prática, o resultado do julgamento é semelhante ao proposto pelo relator. Em ambos os entendimentos, ficam preservados os enquadramentos funcionais, as remunerações pagas e as remunerações concedidas aos servidores. 

Julgamento concluído 

O julgamento do caso teve início em outubro de 2025. Antes de retomar a análise nesta quarta, o ministro André informou que recebeu novos estudos técnicos e pareceres orçamentários elaborados pela Câmara Municipal de Curitiba e apresentados por sindicatos, documentos que não integravam o processo no início do julgamento. 

Os estudos apontam que houve estimativas de impacto financeiro para embasar a aprovação das leis. Apesar disso, o relator afirmou que os novos elementos não alteraram sua conclusão e confirmou integralmente o voto apresentado na sessão anterior. 

(Gustavo Aguiar /CR//CF)

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